Última atualização: 20/03/2026 às 15:41:00
A juíza federal Cristiane Mendonça Lage abriu o evento e delimitou o objetivo institucional. “Estamos aqui para lançar luz sobre a violência de gênero e evitar que esse tema seja naturalizado. O Direito não resolve sozinho. Precisamos ouvir outras áreas e construir respostas integradas”, afirmou. Ela também alertou para o risco de banalização diante da frequência dos casos. “A repetição dessas notícias pode gerar anestesia social. Não podemos aceitar isso como normal”, disse.
Feminicídio como expressão estrutural
A professora Tatyane Guimarães Oliveira, coordenadora do eixo gênero e saúde do Centro de Referência de Direitos Humanos da UFPB, aprofundou o debate ao situar o feminicídio como expressão de desigualdades estruturais. “Feminicídio não é um fato isolado. É um fenômeno social que destrói famílias e revela relações de poder enraizadas”, afirmou. Ela explicou que a violência contra a mulher decorre de padrões culturais que reforçam a inferiorização feminina. “Existe uma construção social que legitima o controle e o ódio contra mulheres. Isso não é individual, é coletivo”, disse.
A pesquisadora destacou que políticas públicas e legislação possuem papel relevante, mas dependem de aplicação efetiva e apoio social. “A Lei Maria da Penha funciona e as medidas protetivas salvam vidas, mas o enfrentamento exige ação contínua e integrada”, afirmou. Também corrigiu uma percepção recorrente. “A lei não aumentou a violência. Ela revelou o que antes ficava invisível”, disse.
Impactos psicológicos e reconstrução da autonomia
A psicanalista Heloísa Trombetta Quintans, que atua como mediadora de grupo de apoio às mulheres vítimas de violência doméstica, apresentou os efeitos psicológicos da violência e destacou que o dano não se limita ao episódio agressivo. “O trauma permanece. Ele pode se manifestar anos depois, em diferentes formas, e compromete a autonomia da mulher”, explicou. Segundo ela, a violência afeta diretamente a percepção de si. “A mulher passa a acreditar que é culpada, perde confiança e se sente incapaz de reagir”, afirmou.
A especialista apontou a escuta como ferramenta essencial de intervenção. “Quando a mulher encontra um espaço seguro para falar, ela inicia um processo de reconstrução. Isso é decisivo para romper o ciclo”, disse. Ela também destacou que o fortalecimento emocional é parte da solução. “A saída não depende apenas de medidas externas. A mulher precisa se reconhecer como sujeito de direitos”, afirmou.
Responsabilização masculina e prevenção da reincidência
A advogada Marília Albernaz Pinheiro de Carvalho trouxe a perspectiva da responsabilização masculina e apresentou resultados de grupos reflexivos com autores de violência. “No início, eles negam. Dizem que não houve agressão ou que foi uma reação”, relatou. Com a continuidade dos encontros, observa mudança de comportamento. “Após alguns encontros, eles começam a reconhecer o que fizeram e a refletir sobre suas atitudes”, afirmou.
Ela explicou que a estratégia busca evitar a repetição da violência. “Mais de 90% desses homens permanecem em relações. Nosso trabalho é impedir a reincidência e interromper o ciclo”, disse. Também apontou um fator relevante. “Os homens não têm espaços para discutir emoções e padrões de comportamento. Isso precisa mudar”, afirmou.
Escalada da violência e atuação preventiva
A juíza de Direito Graziela Queiroga Gadelha de Sousa, coordenadora da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar do TJPB, encerrou as exposições ao explicar a dinâmica progressiva da violência doméstica. “O feminicídio não começa no ato final. Ele se constrói a partir de pequenas violências que são naturalizadas”, afirmou. Ela detalhou comportamentos iniciais que indicam risco. “Controle de celular, ciúmes excessivos, isolamento e humilhações são sinais que não podem ser ignorados”, disse.
A magistrada apresentou dados que dimensionam o problema. “No Brasil, uma mulher foi morta a cada seis horas, e a cada dois minutos uma mulher buscou ajuda pelo 190”, afirmou. Também destacou a efetividade das medidas protetivas. “Nenhuma vítima de feminicídio na Paraíba possuía medida protetiva ativa, o que demonstra a importância desse instrumento”, disse. Para ela, o enfrentamento exige mobilização ampla. “Não é um problema apenas do Judiciário. É um problema social que exige responsabilidade coletiva”, afirmou.
O debate consolidou um entendimento comum entre as participantes: a violência de gênero resulta de fatores culturais, sociais e institucionais, e seu enfrentamento depende de prevenção, educação, responsabilização e atuação integrada.